As “cidades de mísseis” do Irã são vastos ecossistemas militares subterrâneos esculpidos diretamente nas formações de calcário e granito das montanhas do país. Projetadas para abrigar mísseis balísticos, drones e caças de combate, essas instalações garantem o que a doutrina militar chama de “profundidade estratégica”: a capacidade de absorver um ataque aéreo maciço e manter o poder de retaliação intacto. Ao esconder seu arsenal primário sob centenas de metros de rocha sólida, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) torna obsoleta a maioria das munições convencionais, forçando adversários a dependerem de armamentos antibunker altamente especializados e de táticas complexas de bombardeio.

Anatomia das fortalezas geológicas iranianas

Longe de serem meros depósitos logísticos, essas bases funcionam como guarnições autossuficientes. Para compreender onde ficam as cidades de mísseis subterrâneas do Irã e como elas são protegidas contra ataques aéreos, é necessário analisar a própria orografia do território persa. A espinha dorsal dessa rede repousa sob as imponentes cordilheiras de Zagros, no oeste e sul, e Alborz, no norte do país.

Os túneis internos ultrapassam frequentemente os 15 metros de altura para acomodar Veículos Lançadores Eretores (TELs) de grande porte, responsáveis por disparar mísseis balísticos como o Emad e o Khyber Shekan. O ambiente interno é mantido por sistemas industriais autônomos que incluem:

  • Matrizes descentralizadas de geração de energia elétrica;
  • Plantas de purificação e filtragem de água subterrânea;
  • Sistemas de purificação de ar projetados para isolar as tropas de ataques químicos;
  • Alojamentos militarizados que permitem a sobrevivência das equipes por meses sem contato com o exterior.

A rocha natural atua como uma blindagem intransponível para satélites de reconhecimento térmico e radares de penetração no solo tradicionais, criando um ponto cego para a inteligência de sinais das forças armadas ocidentais.

A engenharia por trás da barreira contra munições de penetração profunda

A proteção primária das cidades de mísseis não depende exclusivamente de mísseis interceptadores, mas da própria densidade geológica. A extrema profundidade das instalações anula o impacto de mísseis de cruzeiro e bombas guiadas a laser padrão, ditando a tática necessária para qualquer tentativa de neutralização.

  1. Escudo de granito e táticas de despiste
    Enquanto bunkers artificiais de concreto armado podem ser destruídos por ogivas em tandem, as bases iranianas utilizam até 500 metros de rocha natural como escudo primário. Instalações enterradas a profundidades superiores a 60 metros sobrevivem quase ilesas a bombardeios regulares. Para confundir as forças de inteligência, os engenheiros constroem múltiplas entradas falsas e túneis sem saída ao longo da base das montanhas.
  2. Defesa antiaérea de superfície
    Para proteger os gargalos estruturais — como as saídas dos túneis principais e os pesados dutos de exaustão —, os militares iranianos posicionam baterias móveis de defesa aérea nas encostas. Sistemas de radar e mísseis terra-ar operam de forma integrada para abater aeronaves táticas antes que estas consigam alinhar o rigoroso ângulo de queda exigido por bombas guiadas nas portas físicas da base.
  3. A ameaça e mitigação da bomba GBU-57 MOP
    A principal arma do arsenal dos Estados Unidos capaz de ameaçar a integridade dessas estruturas é a GBU-57 Massive Ordnance Penetrator (MOP). Trata-se de uma bomba de 13.600 quilos projetada com uma liga de aço especial para perfurar cerca de 60 metros de terra e rocha antes de detonar. Transportada apenas pelos bombardeiros furtivos B-2 Spirit, a MOP exige múltiplos ataques sucessivos no exato mesmo ponto (tática de perfuração em tandem) para alcançar túneis mais profundos, uma manobra operacional de altíssimo risco e complexidade técnica.

Operações táticas e a aviação subterrânea na base Oghab 44

A aplicação prática dessa engenharia de escavação evoluiu do armazenamento estático para a projeção de poder ativo. Em fevereiro de 2023, o exército iraniano revelou a Oghab 44 (Águia 44), sua primeira grande base aérea tática subterrânea. Localizada sob o relevo montanhoso da província de Hormozgan, estrategicamente próxima ao Estreito de Ormuz, a instalação representa uma mudança drástica no uso das cidades de mísseis.

Esta instalação acomoda caças de interceptação e bombardeiros (como os antigos F-4 Phantom e Su-24), permitindo que sejam armados no subsolo com mísseis de cruzeiro de longo alcance, como o Asef, protegendo a frota aérea contra ataques preventivos que normalmente destruiriam aviões expostos em pistas a céu aberto. Além de caças tripulados, redes similares espalhadas pelo território são utilizadas como hubs de lançamento para frotas de veículos aéreos não tripulados (UAVs) e drones kamikazes.

Dúvidas frequentes sobre o aparato militar escondido do Irã

A inteligência militar consegue enxergar dentro das montanhas?

O Radar de Penetração no Solo (GPR) tradicional perde eficácia após algumas dezenas de metros. Atualmente, agências como a DARPA norte-americana desenvolvem programas experimentais de “tomografia de múons” (MuS2) — o uso de partículas de raios cósmicos de alta energia — para tentar mapear os vazios estruturais dentro do granito maciço.

Como os mísseis são lançados se estão presos debaixo da terra?

As bases possuem sistemas de lançamento duplo. Alguns mísseis são disparados diretamente de grandes silos verticais ocultos no topo das montanhas. A maioria, contudo, é movimentada por pesados caminhões TEL através das rampas de saída apenas no momento exato do disparo, retornando imediatamente para as profundezas para evitar a detecção via satélite.

Armas nucleares podem destruir essas instalações?

No escopo de armas não nucleares, apenas ataques repetidos com as bombas GBU-57 apresentam chance real de perfuração da blindagem natural. Para neutralizar uma base a centenas de metros de profundidade com um único impacto letal garantido, a única ferramenta balística teoricamente viável seria uma ogiva nuclear tática de penetração na terra (como o modelo norte-americano B61-11).

A infraestrutura militar subterrânea redefiniu o equilíbrio operacional bélico ao inflacionar vertiginosamente o risco e o custo tecnológico de um ataque direto contra o território do Irã. Ao transformar o relevo acidentado de Zagros e Alborz na principal linha de blindagem do país, o modelo força grandes potências a contarem com recursos furtivos extremamente restritos. Enquanto a ciência tenta quebrar esse sigilo topográfico com novas metodologias de mapeamento de partículas, as cidadelas de pedra permanecem como os pilares essenciais da dissuasão iraniana.



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