O Oscar é a premiação mais famosa do cinema mundial, mas o processo para definir quem sobe ao palco do Dolby Theatre é muito mais técnico e matemático do que parece. Diferente de festivais com júris pequenos (como Cannes ou Veneza), o Oscar é decidido por uma votação massiva de milhares de profissionais da indústria. Entender como funciona a votação para escolher ganhadores do Oscar exige mergulhar nas regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), que utiliza métodos estatísticos distintos dependendo da etapa e da categoria.

Quem são os membros da academia

Ao contrário do Globo de Ouro (votado por jornalistas) ou do voto popular, o Oscar é um prêmio de “pares votando em pares”. Isso significa que a Academia é composta por profissionais que trabalham ativamente no cinema.

Atualmente, existem cerca de 10.500 membros na Academia, divididos em 17 ramos (branches) principais. Cada ramo representa uma profissão específica: atores, diretores, figurinistas, editores, etc.

Atores: Formam o maior grupo da Academia (representando cerca de 13% a 15% do total). Por serem a maioria, o voto deles tem um peso histórico significativo, especialmente na categoria de Melhor Filme;

Diversidade: Nos últimos anos, a Academia fez um esforço para internacionalizar e diversificar seus membros, convidando mais mulheres, pessoas não brancas e profissionais de fora dos Estados Unidos (incluindo brasileiros);

Requisito: Para se tornar um membro, o profissional precisa ser convidado após receber uma indicação ao Oscar ou ser apadrinhado por dois membros atuais, comprovando uma contribuição relevante à indústria.

As duas fases da votação

O processo é dividido em duas etapas cruciais: a escolha dos indicados (nomeações) e a escolha dos vencedores.

A fase das indicações

Nesta etapa, a regra é a especialização. Cada ramo vota apenas na sua própria categoria:

  • Atores votam para escolher os indicados a Melhor Ator/Atriz;
  • Diretores votam para escolher os indicados a Melhor Direção;
  • Editores votam para Melhor Edição, e assim por diante.

A única exceção é a categoria de Melhor Filme, na qual todos os membros da Academia podem votar para definir os indicados.

A fase final

Após o anúncio da lista de indicados, começa a segunda fase. Agora, a regra muda: todos os membros ativos podem votar em todas as categorias (exceto em curtas-metragens e categorias internacionais se não tiverem assistido aos filmes). Ou seja, um maquiador vota em Melhor Som, e um diretor vota em Melhor Figurino. É neste momento que a popularidade de um filme dentro da indústria conta mais do que a técnica pura.

A matemática do melhor filme

Esta é a parte mais complexa e fascinante. Enquanto a maioria das categorias é decidida por quem tem mais votos (maioria simples), a categoria de Melhor Filme utiliza o sistema de voto preferencial (preferential ballot).

O objetivo deste sistema é garantir que o filme vencedor tenha um consenso amplo, e não apenas a paixão de um grupo pequeno. Funciona assim:

Ranking: O votante não escolhe apenas um filme. Ele deve classificar todos os indicados em ordem de preferência (do 1º ao 10º lugar);

Contagem inicial: A auditoria conta todos os votos de “1º lugar”. Se um filme tiver 50% + 1 dos votos logo de cara, ele vence (isso é raríssimo);

Redistribuição: Se ninguém atingir 50%, o filme com menos votos de 1º lugar é eliminado;

Pulo do gato: Os votos desse filme eliminado não são descartados. Eles são transferidos para o filme que estava em 2º lugar naquelas cédulas;

Repetição: O processo se repete (elimina o último -> redistribui para a próxima preferência válida) até que um filme ultrapasse a marca de 50%.

Por causa desse sistema, muitas vezes o filme que ganha não é o que tinha mais votos de “1º lugar” no início, mas sim aquele que era o “2º ou 3º preferido” da maioria das pessoas. É um sistema que premia o filme menos rejeitado, e não necessariamente o mais amado por um nicho.

Votação nas outras categorias

Para todas as outras estatuetas (Melhor Ator, Direção, Roteiro, etc.), o sistema é o tradicional “winner-takes-all” (o vencedor leva tudo). Os membros votam em apenas um candidato; quem tiver o maior número de votos vence; não há segundo turno ou redistribuição. Em tese, é possível ganhar um Oscar nessas categorias com apenas 20% ou 25% dos votos, caso os votos estejam muito pulverizados entre os concorrentes.

Curiosidades e sigilo absoluto

Todo o processo de votação é auditado pela empresa PwC (PricewaterhouseCoopers) há quase 90 anos.

Cédulas digitais: Hoje a votação é quase 100% online, mas o sistema é extremamente seguro;

O segredo: Apenas dois sócios da PwC sabem os resultados antes da cerimônia. Eles memorizam os vencedores e levam envelopes duplicados para o teatro, escoltados pela polícia, por rotas diferentes;

Campanha: Existem regras rígidas sobre como os estúdios podem promover seus filmes. É proibido, por exemplo, oferecer jantares luxuosos exclusivamente para membros ou enviar e-mails denegrindo a concorrência.

Onde acompanhar a cerimônia

A cerimônia de entrega dos prêmios, resultado dessa complexa votação, ocorre tradicionalmente no primeiro trimestre do ano.

TV Fechada: No Brasil, o canal TNT costuma deter os direitos de transmissão;

Streaming: A plataforma Max (antiga HBO Max) e, mais recentemente, o Disney+ (em parcerias específicas) costumam exibir o evento ao vivo;

Data: Em 2026, a cerimônia está agendada para meados de março, mantendo a tradição de encerrar a temporada de premiações.

O sistema de votação do Oscar, com suas peculiaridades matemáticas e divisão por ramos, é desenhado para proteger o prestígio da estatueta. Embora polêmicas sobre “esnobados” e “zebras” aconteçam todos os anos, o método busca refletir a visão coletiva da indústria cinematográfica naquele momento histórico, imortalizando filmes que conseguem dialogar com a maior parte dos profissionais de Hollywood e do mundo.



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